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O dr. Mattos Peçanha

Escrito por José Geraldo da Fonseca

O dr. Mattos Peçanha era um homem muito completo de mistérios. Chegara do nada, saíra do nada. Não tinha história nem família nem pouso certos. Ia onde a jurisdição precisasse. Ia à igreja todos os domingos de manhã, confessava, comungava, dizia a missa num latim tão escorreito e bem pronunciado como se tivesse nascido no próprio Lácio. Conhecia como poucos as Sagradas Escrituras e até mesmo os Evangelhos proscritos da fé comum pela Santa Madre Igreja, como os mistérios de São Ciprião e os fragmentos dos Sete Sábios do Sião.

Na noite em que o dr.  Peçanha  assumiu a diretoria do fórum, toda aquela cidadezinha de pé de morro foi dormir sossegada. Há meses a comarca não tinha nenhum juiz e a pilantragem transformara aquilo num feudo particular, num condomínio barato onde se fazia de síndico e ditava ordens, impunha medo, fazia as leis. O relógio da moralidade média daquele povo ordeiro e trabalhador dizia que passava da hora de se restaurar a disciplina naquele fim de mundo. Por isso, deram graças a Deus quando cresceu o boato de que um novo juiz não tardaria a aportar no vilarejo.

Já não era sem tempo!

Era ali que o dr. Mattos Peçanha iria passar bons anos da sua juventude estampada naquela cara magrela, escondida atrás dos olhinhos miúdos, daqueles óculos de aro redondo que lhe davam um ar blasé ao melhor estilo Fernando Pessoa.

Assim como o dr. Peçanha, o trem da Estrada de Ferro Rio do Ouro surgiu do nada, rasgando a tardinha. Apitou ao longe e parou de repente, respirando apressado, entupindo a estaçãozinha de fumaça. Desceram uns dois ou três passageiros ocupados com os seus quefazeres, com suas malas e seus planos. Entre eles, esse passageiro ilustre, o dr. Mattos Peçanha. O maquinista carimbou umas folhas, ajeitou o quepe e fez sinal para o foguista. O comboio foi embora com a mesma tristeza com que dobrara a curva do Ginásio Estadual Professor Aprígio de Oliveira.

Nenhum vivente estava na estação para receber o magistrado.

Era um homem sem história, muito completo de mistérios. Chegara do nada, saíra do nada. Não tinha família nem pouso certos. Ia onde a jurisdição precisasse. Chegou de mansinho ao vilarejo  trazendo debaixo do braço um Código Civil puído e repleto de anotações em vermelho, o Regimento Interno do tribunal e uma muda de roupa empaçocada na maletinha cansada de tantas distâncias, misturada a duas velhas gravatas de seda e o Novo Testamento. Amoitou-se no único hotel da cidade, o Ferrara, que pertenceu ao velho Vittorio Fiori antes que o toscano voltasse para Lucca, sua cidade natal, depois que dona Constanza morreu de infarto.

Ninguém conhecia ao certo o magistrado recém-chegado. Nunca tinham ouvido falar, exceto o dr. Agildo Ramos, que tinha sido Oficial de Justiça na 1ª. Vara de Fazenda Pública da Comarca vizinha e agora iniciava na advocatura. Pelo que se lembrava, ouvira falar de um certo dr. Mattos Peçanha, que exercera a judicatura no foro vizinho por uns três ou quatro meses durante a licença do dr. Jurandir Morgado para cursar especialização em Processo Civil na PUC, mas não tinha certeza se se tratava do mesmo Peçanha. Homem de poucos sorrisos, econômico nas falas, rápido nos despachos e rigoroso no julgamento das lides, o dr. Peçanha muito depressa se fez querido e respeitado pelos advogados. Por um episódio que conto mais adiante, em breve ganharia o apelido de “Peçonha”. Tinha pavio curto para conversa mole e paciência longa para interrogar testemunhas. Às vezes, quando o sujeito lhe contava alguma bravata para beneficiar A ou B, e iludir o juízo, o dr. Peçanha olhava fixamente nos olhos do cabra e não dizia palavra. Ficava ali, por uns segundos constrangedores além do necessário, encarando o mentiroso com aqueles olhos duros que justificavam o epíteto de “peçonha”. Parecia uma cobra espreitando um camundongo. Olhava nas entranhas da vítima, na alma, comia o fígado do mentiroso e o sujeito gelava, as mãos tremiam, buscava com o olhar qualquer pouso seguro que o tirasse daquele encontro com o enguiço, mas onde quer que pousasse as vistas achava o dr. Peçanha impassível, frio, sem piscar. Parecia de cera. Homem nenhum no mundo podia arriscar o que se passava pela sua cabeça naqueles instantes frios em que media o cujo de rabo a cabo. O lambão desistia da lorota e pedia para retificar o depoimento.

Assim que chegou à cidadezinha, o dr. Peçanha ligou do Ferrara pro Silveira, titular do cartório, e ditou ordens:

          Dr. Silveira? Peçanha. Assumo amanhã às oito em ponto. Esteja pronto.

          Perfeitamente, Excelência — respondeu-lhe o escrivão, bigodes grossos, óculos fundo de garrafa, quase trinta anos de serventia aguentando as mais estranhas esquisitices dos magistrados de passagem pela entrância.

           Só mais uma coisa, dr. Silveira — rematou o magistrado —: nada de falatório, trololó, datasvênias e vossasexcelências. Sem discursos, sem banda da Polícia Militar, sem padres defumando os cantos com aqueles turíbulos fedorentos. E deixe o representante da OAB fora disso. Detesto gente falsa!

            No dia seguinte, às oito em ponto, o dr. Mattos Peçanha assumiu o posto. A sala de audiências apinhava de gente, pilhas e pilhas de autos sobre a mesa, gente esperançosa com os boletos de andamento nas mãos, mulheres barrigudas sem pensão nem marido. Todos os olhos deitavam-se no juiz franzino, que naquela hora se agigantava e reinava naquela mesinha como um deus. Despachava com desenvoltura, fazia contas, assinava mandados, interrogava, mandava prender e soltar, partia, somava, dividia, aconselhava, mediava, ouvia o Ministério Público, os peritos, as testemunhas, os litigantes, tudo ao mesmo tempo. Tudo com uma ligeireza de encantar.

Uma sensação!

Depois de umas quatro ou cinco horas de trabalho intenso, o Silveira, chefe do Cartório, achegou-se ao juiz, todo cerimonioso, e assim que se fez notado pelo magistrado levantou o indicador direito como a requisitar questão de ordem e cochichou qualquer coisa no ouvido do homem. O magistrado ouviu tudo com ar pensativo, fez que sim com a cabeça, olhou de soslaio o relógio de pulso, anotou qualquer coisa num risque-rabisque sobre a mesa e disse ao Silveira:

                       Me chame o Geraldo.

Geraldo era o cabo da Polícia Militar responsável pela segurança do Fórum. O homem veio, deu continência, perfilhou-se, pôs-se em posição de sentido:

                        Mandou me chamar, Excelência?

                        Mandei, Geraldo. Apronte a viatura e reúna a tropa!

            A “tropa” eram o Geraldo e seu Ermínio, um soldado raso barrigudo e lerdo que estava na Corporação há 29 anos. A "viatura" era um fusquinha 69 todo esculhambado que Geraldo consertava do próprio bolso na oficina do Irineu. O dr. Mattos Peçanha pediu desculpas aos advogados, ao membro do parquet e à “sra. doutora assistente social”, suspendeu as audiências daquele dia, pegou Geraldo pelo braço com um “venha comigo!” e saíram todos em direção ao Buraco da Onça, um bairro paupérrimo da periferia onde Jeremias, um pinguço muito conhecido da “tropa” tinha enfiado porrada na Terezinha, sua amásia, por causa da dobradinha que achou muito salgada. Jeremias era assim. Cismava e enfiava porrada na pobrezinha. No campeonato brasileiro de 1987, quando o Botafogo perdeu por 4 a 0 para o Olaria, a pobre Terezinha pagou a conta da goleada sobre O Glorioso com os dois únicos dentes da frente que lhe restaram da última surra. Dera queixa do companheiro à chefatura de polícia com base na Lei Maria da Penha mas o imbroglio acabara em cesta básica.

            O Peçanha chegou com a tropa ao barraco no Buraco da Onça e encontrou Jeremias com uma faca de cozinha nas mãos, arrotando brabeza e completamente manguaçado. A Terezinha estava encurralada na cozinha, trêmula, chorosa, com a cara toda ensanguentada da valentia do marido. O vestido de chita xadrez todo rasgado deixava ver boa parte da bunda. Peçanha gritou “ó de casa!”, “ó de casa!”, e como ninguém respondia, meteu um vigoroso pontapé na porta. Já dentro do cômodo mal iluminado e fedendo a vômito, olhou fixamente para Jeremias, e disse:

                 Saia pra rua que não bato em homem dentro da própria casa!

            Jeremias olhou aquele homem franzino, de óculos de aro redondo que lhe deixavam a cara do Fernando Pessoa, e morreu de rir. O crioulo tinha uns dois metros de altura por um e oitenta de largo. Dava uns três do dr. Peçanha. Tinha sido carregador de sal por uns bons quinze anos na Salineira Dois Irmãos Ltda. até que a firma foi interditada pelo Ministério Público do Trabalho e ficou sem emprego. Agora vivia de bico nas redondezas, roçava pasto, aparava casco de cavalo, capava porco, limpava pocilgas. O que tivesse. Nas horas vagas, enchia a cara da mardita, arrumava briga e surrava a Terezinha.

Foi pra rua, ainda com a faca de cozinha na mão. De um pulo, avançou sobre o dr. Peçanha com veneno nos olhos. Foi o tempo do homenzinho livrar-se do paletó todo amarrotado e  fora de moda e afrouxar a gravata. Enquanto o negro Jeremias bufava e espumava seu ódio, cortando o ar com o aço que luzia à tardinha, o dr.Peçanha virou-se pro Geraldo, e disse:

                 Tem um berimbau aí, Geraldo?

                Tem não, Excelência. Tem não. Só um 38 véio e trêis bala. Quer que acerte o bicho?

     Nada disso, Geraldo. Nada disso! Mais importante que ter razão é não perdê-la — ensinou —. Somos o Estado, Geraldo. O Estado! E o Estado trata bem seus contribuintes. Faz assim com a boca, ó: tum tum tóim tum tum tóim tum tum tum tum tum tum tum tum tóim.

Geraldo fez. O praça Ermínio fez coro batendo palmas. Embalado pelo som parecido com o de um berimbau, o dr. Peçanha parecia tomado pelo caboclo Tranca-rua. Gingou o corpo como se padecesse de cólica de rim, curvou-se pra trás, balançou as mãos de um lado pro outro como se limpasse fumaça das ventas, girou nos calcanhares e quando o agressor fez de vir pro golpe mortal deu umas duas ou três piruetas no ar e com um rabo-de-arraia jogou o negro no chão e plantou a sola dos dois pés nas fuças do valente, que desabou no meio duns caixotes de sardinha, sangrando pelo nariz e pela boca feito um frango de almoço de domingo. Sem ao menos despentear os cabelos, Peçanha virou-se para o Geraldo, e ordenou:

                  Passa o arame!

O praça algemou o valentão com as mãos pra trás e meteu o sujeito na caçamba da viatura, aos pescoções, com aquela conhecida educação da Polícia Militar.

Voltaram ao fórum e trancafiaram o cabra no xilindró que se usa para acautelar depoentes perigosos. Depois, o dr. Peçanha decidiria o que fazer com o meliante e a res furtiva de cortar bife.

A notícia da valentia do dr. Mattos Peçanha correu boca e fez coisa julgada. No dia seguinte, não se falava noutra coisa. Um menino presente aos acontecidos contou que o dr. Peçanha dera um salto de uns três ou quatro metros de altura e voara no pescoço do Jeremias como uma cobra venenosa. Muito depressa um gaiato começou a chamá-lo às escondidas de "dr. Peçonha”, e a alcunha pegou. O fórum, a partir de então, ao contrário dos outros dias morrediços em que o pessoal gastava as horas lendo o Diário Oficial, dera de contar com gente saindo pelo ladrão. Tudo para ver o “dr. Peçonha”, o juiz franzino que tinha de um golpe derrubado o negro Jeremias, o brigão mais temido daquele trecho, batedor de mulher e estragador de festa.

O dr. Thiago Carapetcov, titular de Direito Penal da Faculdade de Direito Profª Carolina Damian levou os acadêmicos do 4º ano pra assistir às audiências do dr. Peçanha, com a recomendação expressa de que depois fizessem um trabalho sobre Deontologia Jurídica. “De no mínimo vinte laudas!”.

Mattos Peçanha era uma sumidade.

Assim corriam os dias naqueles fins de tarde macambúzios, de insuspeita tranquilidade depois que o dr. Peçanha assumira a comarca. Os meliantes mudaram-se dali ou desistiram do ofício, os negócios iam de vento em popa, as pequenas querelas entre vizinhos resolviam-se no papo, entre amistosas rodas de truco e um café preto com bolinhos de chuva.

O mundo, enfim, respirava em paz.

Um dia, na missa de Páscoa num domingo de manhã, um incidente mudou a vida do dr. Mattos Peçanha e daquela vila hospitaleira, e consagrou para sempre a figura daquele magistrado franzino, a ponto de o dr.  Estanislau Vieira, presidente da Câmara, propor a dação do título de Cidadão Honorário e inauguração de um busto do homem na praça mais pública da cidade, o que o dr. Peçanha educadamente recusou.

  “Não faço mais do que a jurisdição espera de mim”— dizia, sinceramente modesto.

Assim que o dr. Peçanha chegou para a missa, a igrejinha apinhada de gente para vê-lo humildemente lavar os pés do padre Joaquim e dos apóstolos recrutados entre o povo simples, o sacristão Dagoberto procurou-o com os olhos no meio da gentada. O auxiliar do vigário tinha o cabelo engomado e a batina imaculadamente limpa, o turíbulo de prata fumegando incenso. Localizou o magistrado, foi até ele e cochichou, respeitoso:

    Excelência, temos um probleminha. O padre Joaquim teve um mal súbito. Acho que é coração. Ele tem pressão alta, diabetes, já teve um infarto do miocárdio e não toma os remédios direito. Ele não tá bem. Diz que quer falar com o senhor.

O dr. Peçanha deixou o missário e o terço sobre o banco de jacarandá e foi à sacristia ouvir o padre. Encontrou o velho reverendo deitado num banco tosco, pálido, o peito arfando de cansaço, uma batina velha servindo de travesseiro improvisado. Trazia nas mãos o terço de marfim com a imagem da Virgem Santíssima incrustada numa madrepérola que ganhara do bispo diocesano Dom Angelo Mazzarelo quando completara 65 anos. O padre tomou o dr. Peçanha pelas mãos e, com os olhos lacrimosos, quase santos, pediu-lhe com voz trêmula, entrecortada e pia:

   Dr. Peçanha, ouça-me: não estou bem. Acho que se avizinha a minha hora. O Senhor Bom Deus Misericordioso sabe o que faz. O sr. é exemplo de retidão e paradigma do justo e do reto. Não decepcione esse nosso rebanho pobre e esperançoso. Vá lá e, em meu nome, e da Santa Madre Igreja, diga-lhes qualquer coisa, uma palavra de afeto, de amor, de esperança. Depois, mande-os para casa, cuidar da vida e da Fé Católica. Hoje não tenho forças de dizer missa.

Assim se fez.

Nunca ninguém jamais ouvira sermão tão pouco e tão bonito.  Nem no Sermão da Sexagésima do Padre Vieira se vira tanta nobreza e erudição. Os homens, tocados pela mansidão das palavras do Peçanha, abraçaram suas mulheres ternamente, beijaram seus filhos, e pediram perdão por tantas ausências e dobradas vilanias. As mulheres debulharam-se em lágrimas sinceras e as crianças, que de hábito tocavam um banzé nas missas, desejosas da hora de ir para a pracinha brincar de pega-pega e comer algodão-doce, ficaram ali, quietinhas, enlevadas, os olhinhos vermelhos de um choro contido de emoção. Quem visse, jurava que eram querubins e serafins. Talvez fossem mesmo.

O dr. Mattos Peçanha assumiu o púlpito com a nobreza de um cardeal na Piazza di San Pietro, mas trazia no semblante a singeleza do Nazareno pregando aos filisteus. Esperou que a turba calmasse o bulício, limpou a garganta com um leve pigarreado, e com o olhar perdido na lonjura de um lugar qualquer que era só dele, começou o sermão:

   “Queridos irmãos e irmãs desta comunidade ordeira e pacata. Minhas crianças. Diz um ditado da minha terrinha, da minha roça: dia de muito, véspera de nada. Hoje a tristeza veio nos visitar, e testar a nossa Fé. Talvez em breve choremos, por razões diversas, mas não nos envergonhemos disso. Jesus também chorou. Poucas vezes Jesus chorou, mas é certo que chorou pelo menos três vezes. Está em João, capítulo 11, versículo 1-43, que exatamente num domingo como este, de Páscoa, Marta e Maria, irmãs de Lázaro, tinham mandado um recado ao Messias: ”Senhor, aquele que amas está doente”. Ao chegar à casa de Lázaro, na bucólica cidade de Betânia, vindo das suas lonjuras e peregrinações, o Jesus justo e poderoso recebeu a notícia de que seu amigo Lázaro estava morto há quatro dias, e que já o haviam enterrado. Então chorou. Marta, irmã de Lázaro, achegou-se ao Nazareno, e  lhe disse:

  "Senhor. Por que demoraste? O seu amigo está morto. Mas bem sei que tudo o que pedires ao Pai ele te dará".

E Jesus então lhe disse:

   "Eu sou a ressurreição. Aquele que crê em mim, ainda que morto, viverá".

Em seguida, O Messias aproximou-se da gruta onde jazia o corpo de Lázaro, seu amigo, e disse:

   "Lázaro, vem para fora!".

E Lázaro veio. Levantou-se do sepulcro com suas próprias pernas, e livrando-se dos andrajos abraçou-se ao Senhor. Se eu pudesse, diria:

  "Joaquim! Vem para cá e diga a nossa missa, que a nossa alma dorida clama pelo bálsamo das suas palavras!".

Mas eu não posso! Sou um homem rude, de poucas letras, forjado no ferro bruto das leis e dos códigos, das instruções normativas do meu tribunal, das súmulas vinculantes e das atas correicionais. Creio que muita vez errei nas minhas sentenças e com isso magoei muita gente. Criei dor onde somente me pediam um alívio para a sua dor, que já era muita. Penso que muita vez prevariquei por medo de desagradar os poderosos, fraquejei com a ambição de cair nas graças dos meus superiores em busca de uma promoção ridícula que mais aprisiona que liberta. Muita vez fui arrogante com os pequenos, pela simples certeza de que nada podiam contra mim e que eu tudo podia contra eles. Tudo isso passa pela minha alma atormentada quando me recolho aos aposentos depois de um dia de faina estafante, tudo isso me aniquila, me diminui, tudo isso rouba de mim o que eu tenho de mais bonito, e deixa à mostra de todos o que eu tenho de mais sórdido e covarde. Deus está sempre me testando. Hoje, por exemplo, Deus me fez vir aqui, a esta sua casa, a este lugar santo, para falar aos vossos corações. Deus quis que eu estivesse hoje aqui para expiar a minha alma. Meus irmãos! Nosso bom padre Joaquim não está bem, e crê que Deus Nosso Senhor o quer ao seu lado, para continuar a sua obra. É hora de nos juntarmos todos na nossa fé pelo pronto restabelecimento dessa alminha de Deus. Mas preparem-se para o pior! Por isso, caríssimos irmãos, o que o bom padre Joaquim pede a cada um de vocês quando saírem daqui é que tomem seus filhos e suas mulheres e seus amigos e seus parentes pelas mãos e construam famílias que possam verdadeiramente honrar esta cidade e este povo. De minha parte, lhes peço: se sobrar algum lugarzinho nas suas orações, orem por mim, pelos meus pecados, e ajudem-me a pedir a Deus Todo Poderoso que me perdoe pelas minhas mentiras, pelas minhas farsas, pelas tantas vezes em que fui mesquinho e vil, que iludi, enganei, trapaceei e falhei com meus semelhantes. Que Deus me perdoe se não fiz a melhor justiça, embora tenha a certeza de que era a justiça mais justa que naquele momento me era possível fazer. E quando chegar a minha hora, que me dê pena na exata medida dos meus delitos”.

Em seguida, como um autêntico servo de Deus, ergueu o cálice aos céus, botou uma hóstia na boca, bebeu um imenso gole de vinho santo, e disse:

   "Comei e bebei todos vós. Este é o corpo do meu corpo; este é o sangue do meu sangue. O Senhor  esteja convosco!"

E o povo, desmanchado em lágrimas, respondeu em uníssono:

  "Ele está no meio de nós".

Depois, citando Jó, o dr. Peçanha ergueu as mãos para os céus com uma leveza infinita que parecia tocar os pés do Senhor, e concluiu:

     "Domine, non sum dignus ut intres sub tectum meum sed tantum dic verbo et sanabitur anima mea”.

E traduziu para a patuleia emocionada:

   “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma só palavra e minha alma será salva".

E naquele dia, ainda embevecidos daquela magnífica preleção, os fiéis voltaram para as suas casas mais leves, todos os pecados expiados, inclusive o original. A cidadezinha de pé de morro, que há três meses, desde que o dr. Peçanha assumira a direção do fórum, não sabia o que era um furto, um roubo, um delito de maiores proporções, agradeceu a Deus por lhes ter dado um juiz tão justo, um padre tão bom, uma vida tão completa de misericórdia e farta de mansidão.

O padre Joaquim morreu no dia seguinte.

O dr. Peçanha nem soube do ocorrido. Na mesma noite daquele domingo em que rezou a missa de Páscoa no lugar do padre, fechou a conta no Ferrara e tomou o trem nas 19h32min com sua mesma maletinha, levando dentro um terno empaçocado, duas gravatas velhas de seda e o Novo Testamento. Deixou sobre a mesinha do quarto o Código Civil todo anotado em vermelho e o Regimento Interno do tribunal.

No dia seguinte, às oito em ponto, o escrivão Silveira abriu o fórum como fazia há mais de trinta anos, aguentando as maiores esquisitices da judicatura ambulante. O dr. Peçanha não apareceu. Às oito e meia, três camburões da Polícia Federal invadiram apressados, cantando pneus, o pátio do fórum até então presidido pelo dr. Peçanha. Deles, desceram o Delegado Federal Freitas Mello, o tenente-coronel França e mais uns cinco ou seis agentes vestidos de preto, máscaras ninja protegendo o rosto, grossos coturnos preparados para uma guerra sem fim. Entraram pelas escadarias do prédio com submetralhadoras em punho, empurrando gente, derrubando cadeiras, vasos de planta, fazendo estardalhaço. Traziam um mandado de prisão contra o “dr. Mattos Peçanha”, assinado pelo próprio Corregedor Geral.

Segundo o Delegado Freitas Mello explicou ao Silveira e aos advogados atônitos com a inadmissível truculência policial, o “dr. Peçanha” não era juiz coisa nenhuma. Nunca fora. Pelo que se sabia, não tinha nem ginasial completo. Era um maluco desenganado fugido do Pronta Internação Noêmia Ernestina Lima — PINEL —, o hospital psiquiátrico mais antigo da capital, e que há anos se fingia de magistrado por comarcas vazias do interior.

Por sugestão do dr. Silveira, foram ao Ferrara dar voz de prisão ao gatuno judicaturista, mas era tarde demais. O dr. Mattos Peçanha partira na noite anterior para lugar incerto e não sabido.

Enquanto a guarnição do dr.Freitas Mello mais uma vez dava com os burros n'água, uma população ordeira e esperançosa se acotovelava noutra estaçãozinha modorrenta do interior, a quase duzentos quilômetros da comarca até então presidida pelo dr. Peçanha. O trem, cansado de uma noite inteira varando aquelas pastagens, apitou ao longe e parou na estaçãozinha quase abandonada, deixando ali um único passageiro, um homem franzino, óculos de aro redondo escondendo a cara magricela e pura. Toda a cidade apareceu para beijar a mão do ilustre passageiro, o padre Mattos Peçanha, o novo reverendo do lugar. Há anos esperavam por esse anjo de deus, e agora O Messias tinha finalmente ouvido a sua prece. No caminho da casa paroquial, a criançada ia feliz enrolando-se nas saias do padre Peçanha. Generoso e brincalhão, enquanto espargia com as mãos sobre os mortais uma imaginária porção da mais benta das águas, o santo padre dizia aos passantes “Bem-aventuradas as criancinhas, pois delas é o reino dos céus! Felizes os que têm o coração despossuído de ambição, pois esses verão a Deus! Aleluia! Aleluia! O Senhor é o meu pastor, e nada me faltará!”. As beatas iam logo atrás numa novena pia e benfazeja, cabisbaixas, respeitosas, os véus pretos da Congregação de Maria cobrindo aqueles olhares piedosos, os terços rodando os caroços dos dedos calejados da lida doméstica. Entoavam baixinho “A nós descei, Divina Luz, a nós descei, Divina Luz”, embebidas pela doçura de um padre tão jovem e terno, aqueles olhinhos miúdos escondidos atrás dos óculos de aro redondo que lhe davam um ar de São Francisco de Assis.

O padre Peçanha era um homem completo de mistérios. Não tinha pouso certo. Ia onde houvesse alguma alma em perigo. Chegara do nada, sem pompa ou circunstância, no velho trem da Estrada de Ferro Rio do Ouro. Uns moleques que nadavam pelados no rio enquanto comiam goiaba no pé juravam que viram o padre descer dos céus numa imensa bola de fogo.

O Delegado Freitas Mello tomou o rumo oposto, seguindo seu faro infalível de cão perdigueiro, 1º colocado na Academia de Polícia e amigo pessoal de S.Exa. o Sr. Secretário de Segurança Pública.

Naquele dia, toda aquela cidadezinha foi dormir aliviada, agradecida a Deus por lhes dar um padre tão bom e justo. 

Tinham agora uma vida completa de misericórdia e farta de mansidão.
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* José Geraldo da Fonseca é desembargador, presidente da 2ª turma do TRT do RJ.

 

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