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Drogas Lícitas, Ilícitas e Virtuais

 

 

Antonio Silvio Curiati

 

- Arnaldo?

- Sim.

- É o Alceu. Como vai?

- Eu estou bem, Alceu, e você? E aí? Vai ter outro estrogonofe na sua casa?

- Não. Desta vez não é por isso que estou ligando. Preciso muito falar com você, sobre uma tragédia que me aconteceu. Se não desabafar com alguém, explodo.

- Pois fale! O que há?

- Prefiro falar pessoalmente. Que tal hoje à noite, no local e horário de costume?

- Então está bem. Até mais.

Alceu, de tão ansioso, chegou cedo e pediu mesa na calçada, pois nesse dia acendera um cigarro no toco do outro e não tinha intenção de parar tão cedo. Para completar, pediu uma boa dose de uísque com gelo e ficou nervosamente à espera do amigo, alternando os goles e as tragadas.

Arnaldo não tardou a aparecer, também ansioso para saber o que estava acontecendo.

Cumprimentaram-se e Arnaldo, nem bem sentou, fuzilou-o:

- Desembuche logo, homem!

Alceu pôs uma fisionomia de extrema preocupação, deu uma tragada profunda que reteve por longo tempo, soltou-a vagarosamente, tomou um generoso gole de uísque, encarou bem Arnaldo e arrematou:

- Meu filho é um viciado!

 

E aprendeu com quem???

 

Revendo premissas

 

A pergunta, inesperada, não faz parte desse diálogo fictício, cujas circunstâncias são atuais e poderiam ter acometido qualquer um. Visa apenas abrir caminho para a reflexão que se segue, onde a questão das drogas é examinada à luz de pontos de vista pouco comuns, a serem agregados às discussões habituais, ampliando-as. O tema é complexo e de solução ainda longínqua.

 

Drogas lícitas e ilícitas

 

A sociedade só vai conseguir efetividade no combate às drogas ilícitas quando começar a combater as drogas lícitas (uso indiscriminado de fármacos psicotrópicos e de supressão sintomática, álcool, tabaco, café e outros produtos cafeinados, cacau e derivados, açúcar refinado, adoçantes artificiais etc.).

As crianças tornam-se dependentes de boa parte dessas substâncias ainda em casa, em contexto afetivo, como se fossem algo natural e saudável. Quando, já crescidas, acabam vítimas de traficantes de drogas ilícitas, estão apenas mudando de fornecedor, em busca de sensações mais intensas do que as obtidas das drogas lícitas. A relação de dependência é exatamente a mesma exercitada a vida toda com estas. Não estivessem o organismo e a alma já com a sensibilidade tão embotada pelo seu uso e pela alimentação qualitativamente ruim, na maioria das vezes rejeitariam de pronto as drogas ilícitas, por meio de intenso mal-estar.

Quando os pais chegam à terrível constatação de que um filho é viciado em drogas ilícitas, há, portanto, de fazer a pergunta: e aprendeu com quem? Pois as drogas lícitas foram usadas desde o berço, com o aval e estímulo da família e da sociedade, preparando o terreno para as outras...

 

A análise transacional, o vício em drogas e o script da falta de alegria

 

            É muito interessante a tese apresentada pelo psiquiatra americano Claude Steiner no livro Os Papéis que Vivemos na Vida, Ed. Artenova (a versão impressa está fora de catálogo e só é encontrada em sebos, mas o texto está disponível para download na internet), onde aborda a questão do ponto de vista da análise transacional. Ele atribui o vício em drogas, quaisquer que sejam elas, ao script da falta de alegria. A droga é a maneira, ainda que fugaz, de a pessoa se reconectar à capacidade de se alegrar, perdida devido aos condicionamentos recebidos da educação e da convivência social.

 

O cerne da questão

 

            Nessa linha de raciocínio, o ponto central da questão das drogas é o seguinte:

A partir do momento em que o indivíduo lança mão de substâncias – sejam lícitas ou ilícitas – para suportar circunstâncias de vida adversas, opressivas, sem sentido e pouco significativas, deixa de atuar para modificar essas situações, que, em virtude da inação, vão se tornando cada vez piores e exigindo mais e mais doses das substâncias para serem suportadas, até que estas não mais fazem efeito e o usuário tem de buscar um upgrade, num crescente sem fim para obstar o contato com as percepções interiores, que sinalizam desconforto. Esse processo necessariamente desemboca nas drogas ilícitas.

 

Legalizar resolve?

 

            Quando se fala em legalizar drogas, dever-se-ia falar em legalizar mais drogas, porque já há muitas de uso corrente, lícitas e tributadas, sem que isso tenha o condão de lhes retirar a condição de drogas e tampouco a perniciosidade. Tanto quanto as drogas ilícitas, as drogas lícitas também geram dependência, e a sua privação igualmente provoca síndrome de abstinência.

Pode-se defender a legalização de drogas com base em inúmeras razões, como se vê nas discussões públicas a respeito, mas defendê-la a pretexto de serem gerados impostos é raciocínio falacioso. Será sempre mau negócio para a sociedade, porque a arrecadação nunca vai compensar os efeitos deletérios, propagados em cadeia no seio dessa mesma sociedade.

O fenômeno é bem evidente no caso do álcool e do tabaco, atingindo dimensões astronômicas quando se associam: o álcool restringe a capacidade de discernimento, embotando decisivamente a consciência; já a nicotina inibe o contato dessa mesma consciência com as percepções interiores, desabilitando o mecanismo natural de feedback que nos poderia defender. O resto é consequência...

            Para quem quiser constatar pessoalmente, basta observar, em qualquer aglomeração pública, a impressionante quantidade de jovens com bebida alcoólica em uma mão e cigarro na outra. Parece um arrastão!

 

Hábito e vício

 

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Vítima de violência policial na adolescência, ex-capitão da corporação pede reforma para conter discriminação racial nos EUA.

ericadams

Espancado por agentes aos 15 anos, Eric Adams entrou para a NYPD e se tornou um dos principais ativistas pela reforma da polícia no país; subprefeito do Brooklyn, ele já declarou que quer se candidatar para a prefeitura nas próximas eleições

Do Operamundi

Eric Adams tinha 15 anos quando policiais o prenderam por entrar indevidamente em propriedade privada. Eles o levaram ao porão de uma delegacia no Queens, em Nova York, e o espancaram de tal forma que ele urinou sangue pelos sete dias seguintes. Constrangido e envergonhado, ele não contou a ninguém sobre o acontecido. Quando Adams se lembra daquela semana, ele não tem certeza se contar sobre o episódio a alguém faria alguma diferença. O que poderia ser feito?

“Famílias negras sentiam medo demais para irem a um distrito policial denunciar um dos agentes”, diz Adams, 54, capitão aposentado da polícia de Nova York, a NYPD, e atual subprefeito do Brooklyn, bairro nova-iorquino. “Isso não acontecia; desejavávamos mínima ou nenhuma interação com policiais.”

A história se tornou uma parte fundamental da biografia de Adams. Foi a razão pela qual ele decidiu entrar na instituição para ajudar a transformar a percepção dos policiais nova-iorquinos sobre pessoas negras. Ele começou como um jovem policial ativista que estava em constante tensão com a NYPD, e hoje usa uma linguagem mais moderada quando fala sobre a relação entre a polícia e a comunidade. Atualmente é um político com aspirações assumidas ao cargo de prefeito da cidade. Ele ainda fala sobre a necessidade de reforma da polícia, especialmente após a morte de Eric Garner, homem negro sufocado por um policial nova-iorquino em julho de 2014. E por conhecer os dois lados da moeda, as pessoas tendem a escutá-lo.

Em 1984, quando ele se tornou policial, notou instantaneamente os estereótipos racistas que os policiais brancos mantinham em relação a pessoas negras. Entretanto, ele admitiu que quase teve a mesma linha de pensamento. “Em alguns momentos da minha carreira como policial me apeguei a estereótipos assim como meus colegas brancos”, declarou em entrevista a um programa de rádio norte-americano em dezembro do ano passado. “Você tem que realmente tomar cuidado cotidianamente para não cair na crença comum, porque você toma contato com um número grande de chamadas relativas a uma porção reduzida da comunidade que comete crimes que não dizem respeito à comunidade inteira”.

Adams se destacou em 1995, quando foi um dos fundadores de “100 Blacks in Law Enforcement Who Care” (“Cem policiais negros que se importam”, em tradução livre), um grupo de defesa contra os abusos policiais da NYPD, situado no Brooklyn. Ele criticava abertamente o então comissário de polícia de Nova York, Howard Safir, e o então prefeito Rudy Giuliani devido à agressividade dos policiais em comunidades negras. Suas críticas colocaram-no na mira do gabinete de assuntos internos do departamento. Foi iniciada uma investigação sobre o grupo e sobre Adams. Em 1999, o 100 Blacks foi acusado de “assediar” oficiais negros que lidavam com crimes de rua para falar sobre “atividades racistas” dentro da unidade. A sindicância foi finalizada em março do mesmo ano por falta de provas.

Adams não se deu por vencido. Ele criticou publicamente o então prefeito Rudy Giuliani mais uma vez em 2000, que divulgou ao público a ficha criminal de Patrick Dorismond, um homem negro desarmado morto por um policial disfarçado.

“Se estamos conferindo fichas criminais, eu mesmo fui preso aos 15 anos”, declarou Adams na época ao jornal The New York Times. “Isso faz com que uma pessoa não possa andar pela cidade? Quando foi que isso se tornou motivo para que um jovem seja alvo de um tiro? Alguém que queira justificar isso é doente.”

blacklivesmatter_theAll-NiteImages“Meu filho será o próximo?” e “#VidasNegrasTêmValor”: manifestação em novembro de 2014 contra práticas racistas da polícia dos EUA

Em 2002, ele criticou o então comissário da NYPD, Ray Kelly, pela falta de diversidade no departamento e pelo apoio à prática “Stop and Frisk” (Pare e Reviste, em tradução livre), que focava desproporcionalmente jovens negros. Em 2006, depois de se aposentar após 22 anos na NYPD, Adams foi eleito para o Senado estadual de Nova York, representando o 20º Distrito Central do Brooklyn, de maioria negra. Ele se manteve no posto por oito anos, e logo depois concorreu e venceu as eleições municipais de 2013 para a sub-prefeitura do distrito do Brooklyn.

Adams seguiu condenando publicamente os abusos cometidos pelos policiais e as justificativas para os atos de violência.

No começo de dezembro de 2014, a Justiça dos EUA decidiu não indiciar Daniel Panteleo, o policial que aplicou uma técnica de estrangulamento proibida em Eric Garner, homem negro desarmado que morreu na hora. Quando os nova-iorquinos foram às ruas em protesto, Adams defendeu o direito à marcha e criticou Giuliani, seu velho inimigo, por desviar a discussão sobre a brutalidade policial para crimes envolvendo pessoas negras.

Tempos depois, ele defendeu os manifestantes da declaração do líder do sindicato da NYPD, Pat Lynch, que culpava os ativistas por criarem uma atmosfera de tensão que resultou na morte dos policiais Rafael Ramos e Wenjian Liu em 20 de dezembro, no Brooklyn. “Não podemos misturar as duas coisas”, declarou enquanto discursava em frente a um memorial improvisado no local onde os policiais foram mortos. “As pessoas que querem uma reforma policial não estão interessadas em vingança contra a polícia”.

Entretanto, ainda no mesmo local, ele disse à multidão de repórteres que os ativistas deveriam suspender as marchas até que os policiais fossem enterrados. “Está na hora de os nova-iorquinos se unirem.”

Cerimônia de formatura da Academia de Polícia da NYPD, em junho de 2014

Quando indagado se aquele pedido de cancelamento dos protestos poderia ser visto como uma acusação indireta aos manifestantes pela morte dos policiais, ele disse que se tratava de permitir que as famílias dos oficiais vivenciassem o luto. “Acho que quem não entendeu isso cometeu um grande erro”, afirma. “Nada que pudesse engrandecer os argumentos dos ativistas seria maior do que dizer: ‘Nós não queremos que nossa discussão faça parte desse período de luto. Existe um período para que continuemos nossos protestos, para os nossos argumentos, mas uma pausa durante este período de luto é importante’.”

O sindicato de policiais, comandado por Pat Lynch, usou aquele momento para antagonizar Bill de Blasio, prefeito de NY, que declarou publicamente o medo de que seu filho, que é negro, sofresse nas mãos da polícia.

Adams criticou os oficiais por terem virado as costas para o prefeito durante o funeral do policial Ramos. Ele disse que, se fosse comissário de polícia, os teria acusado formalmente dentro da instituição e recomendado suspensão ou dispensa dos policiais que tiveram tal atitude. “Se eles querem agir desse modo enquanto civis, a Constituição lhes dá este direito”, afirmou. “Policiais possuem dois níveis de autoridade que nenhum outro norte-americano tem: eles podem tirar a liberdade e a vida de alguém. Quando você tem este nível de responsabilidade, você não pode seguir agindo como bem entender”.

Graduation Diana RobinsonCerimônia de formatura da Academia de Polícia da NYPD, em junho de 2014

Para o jornalista Errol Louis, especializado em cobrir assuntos políticos do município de Nova York, os antecedentes de Adams como ex-policial e crítico da NYPD podem servir para angariar alguns pontos agora, mas não devem ajudá-lo a alcançar um cargo mais alto em Nova York.

“Adams sempre foi um crítico da polícia diferenciado, porque ele atinge o equilíbrio entre reclamar das condições de trabalho e iniciar uma discussão ampla sobre as relações entre a polícia e a comunidade”, acredita Louis. “Este é um campo em que ele tem credibilidade ímpar. Isso pode desaparecer com o tempo, mas, por ora, é uma vantagem política enorme para Adams.”

Brooklyn é o maior distrito de Nova York, com mais de 2,5 milhões de residentes, e marca o início do “broken windows” [“janelas quebradas”, em tradução livre], uma prática policial que Adams apoia. Trata-se de multar pequenas infrações como urinar em locais públicos, vender cigarros nas esquinas ou fumar maconha em lugares públicos. Entre 2001 e 2013, de acordo com o jornal The New York Daily News, 81% dos 7,3 milhões de pessoas detidas por essas infrações eram hispânicas ou negras.

As comunidades do Brooklyn mais visadas pela prática – Crown Heights, Bedford-Stuyvesant, Brownsville e East New York – são majoritariamente negras. Adams demonstrou sua preocupação com relação à disparidade racial nas abordagens da polícia, expressando a necessidade de os residentes brancos estarem sujeitos da mesma forma a essas detenções.

Robert Gangi, diretor do Police Reform Organizing Project (Projeto de Organização da Reforma da Polícia, PROP, na sigla em inglês), acredita que Adams queira de fato a reforma, mas que a “broken windows” não é uma prática digna do apoio do subprefeito. “O que nós da PROP gostaríamos de ver, da parte dele e de outros políticos, é oposição declarada à ‘broken windows’”, afirma. “Os próprios números do governo mostram claramente o que qualquer observador mais atento pode ver: a ‘broken windows’ é uma prática racista que prejudica comunidades de minorias raciais de baixa renda. Cerca de 90% das pessoas detidas ou multadas pela NYPD por infrações leves são negras ou pardas, e as atividades que a polícia reprime nessas comunidades foram, na prática, descriminalizadas nas comunidades majoritariamente brancas.”

Adams sabe que o cargo de subprefeito limita o quanto ele pode pressionar os policiais para patrulharem todo o Brooklyn indistintamente. Ele também tem os olhos voltados para outros projetos, como a prefeitura da cidade. Durante um encontro com uma organização judaica do distrito em outubro do ano passado, ele elogiou o prefeito Bill de Blasio, mas declarou que “após oito anos, quando o prefeito de Blasio deixar de esquentar a minha cadeira, eu serei o próximo prefeito”.

Independentemente do orgulho em ostentar o emblema da NYPD, Adams diz que nunca poderá esquecer o dia em que policiais violentaram sua humanidade naquele porão – coincidentemente na mesma delegacia em que estão lotados os policiais que atiraram e mataram Sean Bell, homem negro desarmado, em 2006 – e como a experiência o motivou a seguir sua missão.

“Depois que o sangue parou de escorrer, pensei que tudo estava bem e que eu poderia seguir em frente e deixar tudo para trás”, conta. “Mas, na verdade, não deixei nada para trás. Aquilo ainda me perseguia e a única maneira de me livrar era mergulhando de cabeça dentro desse mundo. Entrei para a polícia para combater o demônio que ela criou”.

 

Tradução: Isis Shinagawa

15/2/2015Geledés Instituto da Mulher Negra

Fonte:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/samuel/39503/vitima+de+violencia+policial+na+adolescencia+ex-capitao+da+corporacao+pede+reforma+para+conter+discriminacao+racial+nos+eua.shtml



O inferno de Mirian e o céu de Eike e Guilherme.

O inferno de Mirian e o céu de Eike e Guilherme

“No Brasil a cor de pele decide entre ser e não ser suspeito, criminoso e condenado. Aqui não precisa investigar muito porque a inocência ou a culpa está na cara”, diz o filósofo Bajonas Teixeira ao criticar a diferença de tratamento dispensado a brasileira apontada como suspeita de matar italiana e ao empresário acusado de causar prejuízos a milhares de investidores

 

 

Montagem: Anna Clara Pereira Pinheiro Teixeira de Brito

"Uma figura mais limpa que pau de galinheiro, como Eike Batista, financia as UPPs e coloca a população pobre inteira da cidade e de suas periferias, como suspeitos desde o berço. Uma jovem estudiosa, séria e exemplar, vai parar atrás das grades simplesmente por ser negra. Por ser negra, ela é mentirosa"


 

 

 

 

Brasil é um país curioso e, como dizia Tom Jobim, não é coisa para amador. Aliás, a trilha sonora de Orfeu Negro 1959 é de Jobim.  O filme é não só um retrato, em cor e alta qualidade, do negro brasileiro no Rio de Janeiro no fim dos anos 50 (muitos ainda andavam descalços), mas uma construção da beleza negra que flerta de perto com o sublime. Por desvendar essa beleza que, no Brasil é sacrilégio, o filme foi lançado ao Hades (inferno) do esquecimento. Ele ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1960, o que aumentou o ódio das elites brancas, porque a obra mostrava a imagem de um país cheio de pretos no exterior. E pior, lindas mulheres negras no coração da Cidade Maravilhosa. Nesse instante em que, como Orfeu, descemos ao inferno para resgatar Mirian (Eurídice), aproveitamos para trazer clandestinamente de volta essa obra de Marcel Camus, muito cultuada entre os negros americanos, como se pode ver nos comentários do Youtube que traz o filme completo. Eurídice, representada por  Marpessa Dawn, única atriz estrangeira, é a cara de Mírian.  Pois bem. Ao Hades e aos seus conturbados demônios.

Guilherme Fontes, ator medíocre, que representou sempre o eterno papel de bem nascido nas novelas da Globo, é um deles. Seus principais atributos como ator parecem provir de seu talento biológico, o fato de ter nascido loiro e dotado de dois olhos azuis bem visíveis. Foi essa também a herança genética de Eike Batista. Para ambos abriram-se as portas dos bancos, o tesouro público, o sorriso dos gerentes, etc. Ambos pintaram e bordaram, sapatearam com força sobre o dinheiro público, entraram na esbórnia e desceram até a orgia. O primeiro, há dois meses foi condenado a restituir aos cofres públicos R$ 80 milhões.

Guilherme, vamos tratá-lo assim com o carinho que merece, tem uma condenação anterior, em 2010, por sonegação fiscal (além de se apropriar das verbas públicas, também subtraiu os impostos que devia pagar). Ele recebeu uma sentença de interface amigável: três anos de prisão convertidos em trabalho comunitário (ninguém nunca viu uma foto sequer desse trabalho) e 12 cestas básicas no valor de R$ 1 mil cada. Enfim, com toda a sua ficha suja, já que havia o processo pelos milhões apropriados rolando em paralelo, ele literalmente pagou seus três anos de prisão com R$ 12 mil. Ou seja, R$ 12 mil divididos por 36 meses ou 1095 dias = R$ 1,09 por dia.

Pois bem. Cada um dos dias de prisão a que foi condenado, ele pôde saldar com esse mixaria ordinária de R$ 1,09. Convenhamos: para quem travou R$ 80 milhões não ficou assim tão puxado. Ainda mais que o juiz, compreensivo, dividiu em 12 prestações. Não é à-toa que agora, condenado a pagar R$ 80 milhões ele simplesmente ri na cara da Justiça e diz que não vai pagar. Cospe na face da população afirmando que fez o filme, que está prontinho e só falta a grande estreia. E debocha descaradamente de todos afirmando que seu ‘filme’, o Chatô, o rei do Brasil, é “o filme mais aguardado de todos os tempos”. É espantoso imaginar como um basbaque desse pode roubar R$ 80 milhões dos cofres públicos. Mas é isso mesmo: o Estado brasileiro foi desenhado para que esses micróbios façam o eterno butim.

E Eike Batista? Eike, vamos tratá-lo assim com afeto, limpou os bancos públicos e sujou o nome do país nos quatro cantos da terra. A crise atual de credibilidade da Petrobras não seria possível sem ele. Os bilhões perdidos pelo país, devido a essa crise, a fuga de capitais, ao próprio débâcle das organizações X (poucos, nesse país, ainda lembram de como eram as coisas antigamente, isto é, poucos meses atrás. Vale lembrar para os mais jovens: o país vivia sobre a ditadura do sr. Eike e seu grupo X. Sua sabedoria, integridade, capacidade empreendedora, visão de longa distância, modéstia de vida, bondade natural, espírito público, livros geniais de autoajuda empresarial, etc., eram festejados todos os dias. As UPPs, para quem não sabe, são um projeto pensado, financiado, tocado e implementado por Eike Batista. Pois é, com seu interesse em lotear toda a cidade do Rio, investir no “turismo seguro”, Eike tinha que produzir uma cidade murada por guetos. E ele conseguiu isso num estalar de dedos. Quando a crise começou, uma das suas primeiras iniciativas foi dizer que não financiaria mais as UPPs. Eike, como Guilherme, também gosta de debochar. Chegou a ir para os jornais dizer que é duro voltar à situação de classe média. Pois é. Matéria na imprensa esta semana relata a nova vida apertada de Eike: como todo membro em situação periclitante de classe média, Eike tem que se apertar com salário de “cerca de US$ 400 mil”, isto é, algo em torno de R$ 1 milhão por mês.

Por muito menos que isso o megainvestidor americano Bernard Madoff foi condenado à prisão de 150 anos, ou seja, prisão ad eternum. Pois é, por toda a sua eternidade vestirá uniforme listradinhofashion e desfilará pelos corredores vips de uma penitenciária federal.

E os nossos gatunos eméritos? Vão bem, obrigado. São tratados a trufas e caviar preto siberiano. Sim, iguarias que agradam os palatos mais exigentes e as bocas mais gulosas. Esses bon vivantsestão livres como pássaros e felizes como pintos no lixo. No fundo, porém, gozam de um privilégio muito venerado num país como o Brasil: eles são biologicamente corretos. Nasceram loiros e dotados de dois olhos azuis em cada face rosada. Ambos estariam, de tão parecidos, no mesmospa cercado de muros altos e arame farpado afiado a que, pelo mundo, se costuma enviar esses grandes vultos da nacionalidade. Mas o Brasil costuma tratar melhor quem se reveste com uma pele menos carregada de melanina. Melanina, ou pretonina (melas em grego significa preto) aqui é vista como um veneno originado da luz solar, que leva a graves defeitos de caráter.

É isso. No Brasil a cor de pele decide entre ser e não ser suspeito, criminoso e condenado. Aqui não precisa investigar muito porque a inocência ou a culpa está na cara. A sentença vem escrita na pele como num papiro. Uma figura mais limpa que pau de galinheiro, como Eike Batista, financia as UPPs e coloca a população pobre inteira da cidade e de suas periferias, como suspeitos desde o berço.  E o Brasil todo já teria UPP se não fosse o abalo momentâneo do grupo X. O PT sempre foi entusiasta. Seu ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, poderia ser eleito padroeiro e grande entusiasta das UPPs. Mas não só ele, quase toda a cúpula irresponsável.

Agora vamos ver o outro lado. Uma jovem estudiosa, séria e exemplar, vai parar atrás das grades simplesmente por ser negra. Por ser negra, ela é mentirosa. Por não ser cúmplice dos seus algozes, não se confessar culpada, manter a sua dignidade, ela se torna a suspeita número um de um crime que não poderia ter cometido.

Seja por não possuir a força física exigida para praticar o crime, pelo fato de estar a “meros” 300 quilômetros do local em que foi cometido, por não ter qualquer motivo para praticá-lo, por ter uma vida acima de qualquer suspeita, por ser vivaz e articulada porque, afinal, é uma estudante de doutorado numa das universidades mais conceituadas do país, ela deveria estar acima de qualquer suspeita. Mirian é uma pesquisadora de alto nível e, como diz uma de suas professoras, não poderia por sua índole cometer qualquer tipo de crime.

Engana-se, porém, redondamente quem acredita que no Brasil o negro mais bem vestidinho, falando bonito, e apresentando alguns títulos (estudante, doutor, formado, instruído, gestos contidos de classe média, fala mansa e voz baixa, etc.) angarie maior respeito. Muito pelo contrário. Quanto mais boa pinta o negro for, mais suspeito ele se torna. O negro mal vestido é suspeito porque parece perigoso. E o bem vestido, é duas vezes mais suspeito porque disfarça o perigo, ou seja, além de mau é ardiloso.

Por isso, tão desenvolta diz a delegada que Mirian caiu em “inúmeras contradições”. Arrematando esse raciocínio ela diz: “Ela tem reações que variam muito: às vezes ela nega, às vezes não fala nada.” Bem, se eu fosse acusado falsamente por um crime que não cometi certamente o negaria. Com a insistência bestial (isso é tortura, é bom lembrar, tortura psicológica, mas tortura) me recusaria a falar. Foi como Mirian procedeu, estando sozinha, sem advogado, famílias, amigos. Queremos coisa mais digna que isso? Mas negar inúmeras vezes ter praticado o crime é, para a delegada, a prova de que a suspeita praticou o crime. Mirian é mentirosa, falsa e vil. Enfim, ela é satânica. Alguma coisa excepcional nisso? Não. É o pressuposto de julgamento no Brasil de todo julgamento das elites brancas sobre os negros. É o pressuposto cultural inconsciente com que se desenha o retrato falado dos negros.

Até a promoção em larga escala da vinda dos imigrantes para tentar liquidar a existência de pretos no país, o Brasil viveu vários séculos de justificação religiosa da escravidão. Os jesuítas, tendo à frente o padre Vieira, criaram a seguinte justificativa: livres são os negros trazidos escravos para o Brasil, porque estes vêm para conhecer Deus e são recebidos na vida eterna (aliás, eram recebidos rapidinho no céu, porque em certas momentos a vida média dos escravos era de cinco anos apenas). Os negros livres na África, diziam os jesuítas, são os verdadeiros escravos, porque não conhecem senão a feitiçaria e o demônio.

Quando a educadora alemã Ina von Binzer trabalhou no Brasil na década de 1880, ouviu das filhas de um senhor de escravos em cuja fazenda atuava como preceptora o seguinte sobre a origem dos negros:

Aliás, por falar em cor, fiquei espantada de ver essas crianças serem de pele tão pouco escura, quase branca mesmo [logo depois do nascimento]. “Eles vão ficar pretos” – disseram-me [as filhas do fazendeiro] com um sorriso de desprezo, em parte relativo aos pretos e em parte à minha ignorância – “só as plantas dos pés e das mãos continuarão claras”. Eles dizem que quando Cam emigrou para África, tinha, por ordem de Deus, tocado com as mãos e os pés nas águas do Jordão, que recuaram, afastando-se dele; mas desse contato ficaram para seus descendentes, mesmo sob o sol ardente da África, essas partes mais claras. (Carta de 14 de agosto de 1881, fazenda São Francisco)

É daí que vem a expressão “filhos do Cão”, muito usada no Nordeste. Sua origem é a dos Filhos de Cam (nunca passaria pela minha cabeça que o racismo no Nordeste é maior que no Sul. Mas é muito parecido). Por isso, na sua proveniência genealógica mágico-teológica, “filho do cão” significa “homens pretos”.

Disso segue outra consequência também profundamente arraigada na teologia cristã (por isso, é bom que saibam todos os que pensam em fazer o catolicismo trabalhar para sua militância, que isso é totalmente nefasto): que negro não pode ser doutor. Doutor, lembremos bem, era o título dado a São Tomás de Aquino, o maior dos teólogos católicos na Idade Média, o angélico doutor. Como se ia admitir que preto pudesse ser doutor? Como o satânico negro poderia gozar do mesmo título que o angélico doutor? Assim, sobre os inícios da universidade no Brasil, lembrou José Murilo de Carvalho na sua tese de doutorado (A construção da ordem: a elite política imperial. Brasília : UNB, 1980, p. 60.):

“Menciona-se (…) a presença de estudantes de cor já nos primeiros anos da Escola de São Paulo, aos quais, por sinal, um dos professores se recusava a cumprimentar alegando que negro não podia ser doutor.”

Pois é. Lima Barreto, nos primeiros anos do século XX, foi reprovado nada menos que cinco vezes pelo brutal e racista professor Licínio Atanásio, em mecânica racional. Isso aconteceu ali mesmo, entre aquelas paredes feitas de pedras e argamassa de óleo de baleia, onde eu mesmo também estudei filosofia um século depois, de frente para o Largo de São Francisco e a rua do ouvidor, ao lado das escadarias que, segundo Machado de Assis, dormitava o filósofo Quincas Borba (no terceiro degrau das escadas de São Francisco, à esquerda de quem sobe). Lima Barreto chegou a matricular-se seis vezes nessa disciplina mecânica racional mas, até mesmo um herói, que vive para a luta (é o que diz Benjamin em seu ensaio sobre Goethe), chega um dia que verga. E Lima Barreto foi obrigado por fim a renunciar a ser doutor. Negro não podia ser doutor. Lima Barreto desistiu de ser doutor para ser o maior escritor brasileiro, ou seja, muito mais que a ridícula mixaria que negaram a ele.

Ora, agora, cento e dez anos depois que o genial Lima Barreto arrastou o seu calvário, o que vemos? A mesma violência simbólica e material aplicada pela delegada encarregada do caso. Negra não pode ser doutora. Negra deve ser suspeita. Mirian é ainda mais suspeita por cursar doutorado na UFRJ. Os negros devem se transformar naquilo que o projeto transcendental branco já os destinou a ser: vilões, bandidos, pensionários dos hospícios, suspeitos e condenados, habitantes das masmorras infernais. Assim os brancos constroem esse belo país chamado Brasil, à imagem e semelhança deles. Em inúmeras matérias Mirian foi apresentada como “a carioca”. Simplesmente isso, a carioca. Bela ironia inconsciente da burrice porque, na língua dos índios exterminados pelos portugueses, carioca (cari-oca) significa casa de branco.

De onde vem a necessidade de tanta violência da parte dos brancos? Vem da própria fundação do império de ultramar português. O mundo hierárquico português criou dois tipos de brancos. Um foi chamado de brancos puros, os nascido na metrópole, em Portugal, e o outro de “brancos da terra” ou  “brancarões”, isto é, brancos sujos, amestiçados, os nascidos na Colônia. Assim, tal como a palavra alemã reine, que significa “puro” mas também “limpo”, os portugueses criaram a distinção entre eles, homens puros moral e religiosamente, e os da Colônia, indignos de fé, infames e inferiores. Entre os dois grupos se colocou um muro de prestígio e valor. Muito da forma de agir da elite branca brasileira vem da defesa que constituiu nesse momento: covardes demais para realizarem uma revolução como nos EUA, os brancos da terra, para se compensarem, transferiram com maior violência para baixo, para os seus agregados, os mulatos, os negros, o estigma da inferioridade. Criaram, entre muitas outras, a mácula do mulato: mulato pernóstico, mulato sabido, mulato brejeiro, etc.

Sobre a “pureza” pretendida pelos portugueses é interessante lembrar que na Europa, a começar pela França, se dizia no alvorecer dos tempos modernos, que a África começava do outro lado dos Pirineus, ou seja, Espanha e Portugal. E isso devia ao longo domínio dos mouros. Enfim, quando se diziam puros os portugueses queriam se compensar do desprezo europeu. O assunto, como aliás cada um dos pontos que indicamos, vai muito longe e só podemos acenar para eles aqui. Mas já é o suficiente.

A condenação de Mirian França é uma condenação ao inferno, de natureza teológica e cabal. Ela não pode ser doutora e sua pretensão, tal como a de Lúcifer, que quis ser deus, deve ser severamente punida. Os brancos da terra, arrastam ainda os seus fantasmas pelas praias quatro séculos depois de terem pisado pela primeira vez nelas.

Hoje, quando o Brasil submerge na imbecilidade total dos crimes de ódio comandados pela novíssima velha direita, é sempre bom lembrar que as principais figuras da cultura brasileira, Machado de Assis (1839-1908), Tobias Barreto (1839-1889) e Lima Barreto (1881-1922) são homens negros. Filhos de mães negras. Para essas mães, quando chegar a hora certa, nesse país serão erguidos bustos e monumentos. Não só a cultura da África, mas também a da Europa, aqui só floresceu pelas mãos dessas mães. Só elas, como a mãe de Lima Barreto, professora formada que morreu cedo vítima das terríveis condições da vida levava, mas que ensinou o filho a ler, e com cuja voz o filho passou a vida a dialogar com ela em seus escritos, foram e são de fato mães da cultura brasileira. Liberdade para Mirian! Justiça para Gaia!

Obs: existe um suspeito estrangeiro. Mas dele não se sabe o nome, a nacionalidade, as motivações, quando chegou nem se já conseguiu evadir-se do país. Ninguém verá sua imagem nos jornais. Ele não está preso como Mirian. Talvez porque, ao contrário dela, tenha passaporte de outro país e possa fugir a qualquer momento. Não há, está claro, necessidade de detê-lo. Tudo permanece em segredo para não atrapalhar as investigações.

Finalizo com o seguinte: algumas pessoas ao me lerem comentam que escrevo bem. Na verdade, devo dizer que elas leem muito mal. Não se trata de escrever bem, mas de uma filosofia que está desenvolvida em cerca de mil páginas em três livros fundamentais, Lógica do disparate, Lógica dos fantasmas e Método e delírio. São as primeiras obras de filosofia escritas no Brasil. Até então, tudo foi mero tomismo (ou seja, escuta e obediência) com apelidos diferentes: Foucault, Marx, Deleuze, Derrida, Wittgenstein, Nietzsche, etc. Ao começar pelos nomes, que soam bonito para o filósofo brasileiro, está claro que tudo é pensado por uma obediência ao mandato cultural da Europa, a saber, sejam escravos! No Brasil se lê um filósofo para repetir frases bonitas. Da mesma forma como os jesuítas ensinavam seus pupilos a decorarem as passagens da Bíblia para depois repeti-las. Culto da memória (que é a faculdade da obediência), da submissão mental, das frases feias declamadas como se fossem belas: a isso se reduziu sempre a péssima filosofia brasileira.  E quase toda a filosofia americana que, por sinal, chega ao  completo despautério com suas versões cristãs e suas prédicas brancas da ‘libertação’. Libertação, isto é, um novo aldeamento das missões.

 

* Bajonas Teixeira de Brito Junior é doutor em Filosofia, autor do ensaio, traduzido pelo filósofo francês Michael Soubbotnik, Aspects historiques et logiques de la classification raciale au Brésil (Cf. na Internet), e do livro Lógica do disparate.

Leia ainda, do mesmo autor: Dúvidas sobre a prisão da jovem negra no Ceará

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Fonte - http://congressoemfoco.uol.com.br/opiniao/forum/o-inferno-de-mirian-e-o-ceu-de-eike-e-guilherme/

Delação premiada não é caguetagem e o colaborador premiado não é dedo-duro!

Delação premiada não é caguetagem e o colaborador premiado não é dedo-duro!

20-10-2014 

Instituto tão em voga nos dias atuais, especialmente em decorrência das mais recentes lambanças cometidas pelos atuais detentores do poder em nosso País, a delação premiada ou colaboração premiada, consiste na concessão de benefícios àquele que voluntariamente tenha prestado efetiva colaboração à investigação policial ou ao processo criminal.
 
 
O instituto está previsto na Lei 9.807 /99 (Proteção às Vítimas e Testemunhas), nos seguintes termos:
 
Art. 13. Poderá o juiz, de ofício ou a requerimento das partes, conceder o perdão judicial e a consequente extinção da punibilidade ao acusado que, sendo primário, tenha colaborado efetiva e voluntariamente com a investigação e o processo criminal, desde que dessa colaboração tenha resultado:
 
I - a identificação dos demais coautores ou partícipes da ação criminosa;
II - a localização da vítima com a sua integridade física preservada ;
III - a recuperação total ou parcial do produto do crime . Parágrafo único. A concessão do perdão judicial levará em conta a personalidade do beneficiado e a natureza, circunstâncias, gravidade e repercussão social do fato criminoso. (grifos nossos)

Art. 14. O indiciado ou acusado que colaborar voluntariamente com a investigação policial e o processo criminal na identificação dos demais coautores ou partícipes do crime, na localização da vítima com vida e na recuperação total ou parcial do produto do crime, no caso de condenação, terá pena reduzida de um a dois terços. (grifos nossos)

Art. 15. Serão aplicadas em benefício do colaborador, na prisão ou fora dela, medidas especiais de segurança e proteção a sua integridade física, considerando ameaça ou coação eventual ou efetiva. § 1o Estando sob prisão temporária, preventiva ou em decorrência de flagrante delito, o colaborador será custodiado em dependência separada dos demais presos. § 2o Durante a instrução criminal, poderá o juiz competente determinar em favor do colaborador qualquer das medidas previstas no art. 8o desta Lei. § 3o No caso de cumprimento da pena em regime fechado, poderá o juiz criminal determinar medidas especiais que proporcionem a segurança do colaborador em relação aos demais apenados.
 
 

Leia mais:Delação premiada não é caguetagem e o colaborador premiado não é dedo-duro!

Imagem da Justiça brasileira (32% de confiança) está arrasada. (segundo pesquisa).

Imagem da Justiça brasileira (32% de confiança) está arrasada. (segundo pesquisa) 

Publicado por Avante Brasil.

01. Pesquisa feita pela FGV (com 7,1 mil pessoas, concluída em abril/14) para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública revela (Estadão 10/11/14) profunda desconfiança dos brasileiros nas instituições públicas: 81% acham que é “fácil” desobedecer as leis. A certeza da norma, do castigo e do direito encontra-se em profunda crise na sociedade brasileira. Sem sair dessa crise não se pode traçar um futuro promissor para o Brasil (que constitui uma das democracias mais corruptas de toda América Latina). Se existe algo absolutamente inexorável em todas as nações prósperas do mundo, esse algo é o império da lei. É impossível construir uma sociedade moderna e pujante sem que o império da lei (ou seja: lei, Constituição e tratados internacionais) esteja no eixo mesmo da convivência (que somente pode se tornar previsível em razão dessa conjunto normativo). Toda sociedade (em todos os tempos) que não tem como culto primeiro um profundo respeito (por todos) pela legalidade (pela lei, pela constituição e pelos tratados) vive sob permanente caos e, em consequência disso, sempre ameaçada. Em toda América Latina, no entanto, não faz parte da nossa cultura o acendrado respeito pelas normas jurídicas.

02. A profunda decepção de Simon Bolívar com a ausência do império da lei no nosso continente levou-o a proclamar o seguinte (citado por Huntington, em A ordem política nas sociedades em mudança): “[Na América Latina] os tratados são papéis [quem olha a jurisprudência do STF na questão da anistia sabe muito bem do que Bolívar falava; o STF ignorou completamente o direito internacional], as constituições não passam de livros [as violações dos direitos fundamentais rasgam impune e diariamente nossa constituição], as eleições são batalhas [não só políticas, sim, sobretudo, econômicas, levadas a cabo pelos financiadores das campanhas eleitorais, que dessa forma compram o mandato do político], a liberdade é anarquia [pelo menos assim veem alguns grupos nada comprometidos com a democracia] e a vida um tormento [essa é uma excelente síntese para exprimir os protestos de junho]. A única coisa que se pode fazer na América é emigrar [isso era mais confortável no tempo de Bolívar, quando não havia um planeta inteiramente contaminado pelas injustiças geradas pela globalização, que conseguiu agradar alguns e desagradar e desandar a vida de metade da população mundial].

03. Também para 81% dos pesquisados (pesquisa FGV citada) é nítida a percepção de que, sempre que possível, as pessoas escolhem “dar um jeitinho” no lugar de seguir as leis gerais (abstratas e impessoais). O famoso “jeitinho” alcança, como se vê, todas as classes sociais. Essa cultura se dissemina de pais para filhos e de casa em casa. Dizemos que educação se aprende na escola e, sobretudo, em casa. O “jeitinho” em regra é inoculado no espírito da criança “a partir da sua casa”. Como nos comportamos diante de um “proibido estacionar”? “Proibido fumar”? Ou diante de uma fila? Nos países mais organizados (Escandinavos, por exemplo, Alemanha, Coreia do Sul, Japão etc.) as regras ou são obedecidas (por todos) ou não existem. No Brasil as regras gerais (frequentemente excessivas: somos um país de “bacharéis”) em lugar de serem cumpridas dão margem para a corrupção burocrática. Com isso não alcançamos nunca a certeza das normas (ou do castigo). A descrença nas instituições é generalizada.

04. A imagem da Justiça brasileira (32% de confiança) está arrasada. Sua morosidade enerva essa descrença. A confiança na polícia fica um ponto porcentual acima (33%). Apesar de baixos, esses índices já foram menores - 29% e 31% respectivamente - em pesquisa anterior (veja Estadão). Para 57% da população “há poucos motivos para seguir as leis do Brasil”, segundo o levantamento da FGV. Os moradores do Distrito Federal (os mais próximos do crime organizado formado pela troika maligna dos políticos, partidos e outros agentes públicos + agentes econômicos despudorados + agentes financeiros inescrupulosos, que se uniram numa parceria público/privada para a pilhagem do patrimônio do Estado – PPP-PPE) foram os que mais disseram acreditar (84%) na saída do “jeitinho” como regra nas relações.

 

05. Quanto maior o rendimento da pessoa, mais alta é a sensação de que as leis não são cumpridas. De acordo com o estudo, 69% dos entrevistados que ganham até um salário mínimo concordaram que o “jeitinho” é a regra, porcentual que cresce para 86% na população que ganha mais de oito salários mínimos. A impunidade (ausência da certeza do castigo) faz as pessoas desafiarem as leis. A precariedade da fiscalização é a fonte da impunidade. 

 

Vejamos o quadro publicado pelo Estadão: 

 

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