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O Policial como alvo

O Policial como alvo

Por Lívia Borges *

O mundo mudou, ganhou novas armas, passatempos e tecnologias. Mudaram processos, justificativas e leis. Ficamos mais conectados, expostos e vulneráveis. Nossa humanidade repaginada, revisitada, reformulada, virtualizada, banalizada. Nossa consciência coletiva padecendo entre extremos. Que passos avançamos, quais retroagimos? Complexo. Qualquer explicação seria incompleta. Múltiplas visões e interesses, cuja legitimidade deveria fundar-se na ética e não em ideologias. 

Em meio aos conflitos, domésticos, esportivos, políticos, sociais, pessoas comuns podem se tornar criminosas; criminosos comuns podem se sentir seguros para agir impunemente; irresponsáveis podem maquiar notícias, criar armadilhas, desconstruir valores e confundir intencionalmente; outros, oportunistas e sociopatas, com discursos politicamente corretos, podem ser laureados pela fama instantânea por feitos grandiosos, teorias excêntricas, postagens bombásticas, verborragia contundente, decisões miraculosas, curas milagrosas e outras tantas manifestações da criatividade humana a serviço de seu egoísmo. 

A sociedade, como corpo social, desenvolveu uma função de defesa, semelhante as células do sistema imunológico. O corpo humano, dividido em funções, possui um tipo especial de células que são acionadas em situações de ameaças, cuja finalidade é defender o organismo e preservar a vida. Estas células fazem parte do organismo como condição de sua existência, não são alheias, pertencem a ele. 

Na sociedade, o mesmo se repete. Naturalmente, os seres humanos vivendo juntos para crescimento, convívio e proteção, começaram a se organizar em diferentes atribuições e tarefas. Com o desenvolvimento das diferentes civilizações, tais funções foram se especializando, instituições foram surgindo, o Estado foi se configurando, leis e direitos se consolidando, para regular as relações sociais, diminuir desigualdades, dirimir conflitos, estender o domínio, perpetuar o poder, dentre outros. 

Nesse sentido, a universalidade do arquétipo do guerreiro se manifestou nessas civilizações em diferentes épocas, cujas histórias mesclam cenários horrendos, opressivos, vilania, traições e, também ações heróicas, altruísmo, coragem, libertação. Crescemos quantitativa, moral e tecnologicamente em proporções desiguais. O que se reflete nos desafios atuais para criar os filhos, viver uma vida digna e contribuir para a sociedade. Atualmente, salários, códigos de conduta e treinamentos transdisciplinares modernizaram o agir, profissionalizando-se como as demais profissões. Mas ao policial, um desafio se impõe diariamente, o risco sobre si, sobre outrem, e sobre seus familiares. Fácil? Certamente que não. Um erro pode custar a própria vida ou a de terceiros. Sua carreira briosa, perdida. 

Quem é esse ou essa policial que nos defende por obrigação ou idealismo, arriscando a própria vida? Quem é essa pessoa cujo anonimato encobre vidas salvas, medos esquecidos, erros generalizados? De que lado está nos tempos atuais? Da lei? Do cidadão? Do patrimônio? Do suspeito? Da missão?

Estaria perdido diante da anomia? Talvez sim. Talvez estejamos todos. Seria uma doença auto-imune, cujo sistema desorientado passa a agredir o seu próprio organismo? Qual é o nosso papel? Qual o âmbito de nossa atuação? Ademais, além da confusão de valores e da instabilidade que se segue à esteira das mudanças, há a intencionalidade perversa na construção de fatos, distorção e generalização. Quem é essa pessoa, investida do ethos profissional, que sai em defesa… em defesa de quê? Segue sozinho, com espírito de corpo criticado, levando o ultraje do abandono, da ingratidão, incompreensão, cuja glória do dever cumprido serve para fazê-lo prosseguir por mais um dia.

Que dever é esse que o mantêm na linha de frente quando sabe que vai morrer? Enfrenta a morte de diferentes maneiras. Primeiro precisa matar em si a excessiva sensibilidade ante os desmandos e tragédias da civilização em um processo que se pode chamar de dessensibilização, armadura ou sobrevivência possível. Chamam-no insensível. Precisa agir rapidamente para prevenir o pior, chamam-no bruto. Sua atuação desagrada, incomoda. O sentimento de despertencimento surge como um tipo de morte social. 

O entusiasmo dos primeiros anos cede lugar à obrigação e à descrença. Com isso, vai morrendo lentamente, esquecido, ultrajado, usado. Como? Usado para desviar o foco dos reais problemas. Alvo do marginal no caos das desigualdades, alvo de ideólogos cults, alvo da comunidade quando precisa proteger do linchamento um suspeito, alvo da economia midiática para vender notícias, alvo do transgressor quando é impedido de prosseguir um intento ilícito, alvo substituto para as insatisfações contra governos e, por fim, alvo de si mesmo, quando se suicida por não suportar as contradições implacáveis da vida profissional, pessoal e do contexto social hipócrita, corrupto e leniente a qual está inserido. 

O dia em que o/a policial, esta pessoa, cidadão como nós, perder o interesse e a confiança no significado de sua missão, estaremos perdidos. Mas ainda sim, creio, que seu espírito emergirá com outras roupagens, porque ainda somos incivilizados o suficiente para prescindirmos de quem nos defenda. 

* Lívia Borges - psicóloga com especialidade em psicossomática, advogada, mestre em Ciência Política com foco em Direitos Humanos, Cidadania e estudos sobre a violência; autora dos livros: Alma de Guerreiro e A Sombra do Guerreiro: o impacto dos estados anômicos sobre a imagem do policial; dentre outros.

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